Estudo realizado no Centro de Investigação em Pediatria (Ciped) pelo programa de pós-graduação em saúde da criança e do adolescente da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp comprova que mais de 60% dos estudantes universitários dormem mal. A causa principal: o uso de computador à noite. Dependendo do horário, o índice ultrapassa a marca de 70%. O estudo, realizado pela psicóloga Gema Galgani Mesquita Duarte e orientado pelo professor Rubens Nelson do Amaral de Assis Reimão, foi tema da tese de doutorado “Hábitos de vida e queixas de sono em um grupo de jovens universitários”. O trabalho foi publicado este mês na revista Arquivos de Neuropsiquiatria, indexada no Scielo e na MedLine.
Atraso no ciclo de vigília-sono - Diante do monitor do computador, o internauta fica a uma distância de 50 a 60 centímetros da tela e sua interação é muito mais ativa, tanto física como mentalmente. A luz emitida pelo aparelho fica muito próxima da retina. As células da retina, ao receberem estímulo luminoso, enviam uma mensagem elétrica que alcança o hipotálamo; este, além de comandar as glândulas do organismo, possui um pequeno núcleo onde se localiza o relógio biológico, essencial à manutenção dos ritmos e dos ciclos sono-vigília. A intensidade, a variação e o horário das luzes emitidas pelos aparelhos incidindo sobre a retina desregulam no organismo a liberação normal de melatonina, o hormônio responsável pelo sono e, consequentemente, alteram sua qualidade.

“Quando você fica na frente do computador exposto à luz do monitor até a meia-noite, há atraso no ciclo vigília-sono. As pessoas vão demorar para dormir, e a metabolização do hormônio do sono será mais lenta. Quando essa exposição acontece depois da meia-noite, há um adiantamento dessa fase e as pessoas vão ficar mais sonolentas. O ideal, para que uma pessoa durma bem e tenha qualidade do sono, é que ela durma à noite e evite a claridade”, explicou Gema.
O fato de acessar o computador durante as noites nos dias da semana aumentou as proporções de maus dormidores. De acordo com o estudo, 58,06% dormem mal e acessam o computador entre 19 e 21 horas; 71,43% têm problemas com o sono e usam o equipamento entre 19 e 22 horas; 73,33% apresentam incômodos e fazem uso do computador entre 19 e 24 horas; 52,38% dormem mal e utilizam o aparelho das 19 horas até de madrugada.
Entre os internautas de finais de semana, 36,45% acessam o computador e dormem bem, enquanto 63,55% usam a internet e dormem mal. Em relação aos horários de assistir TV, os grupos não diferenciaram entre si na classificação do sono. Outra questão apontada pelo estudo foi que 83,4% das mulheres pesquisadas têm mais chance de dormir mal quando utilizam o computador entre o horário das 19 às 24 horas. Já com relação aos homens, este índice ficou em 47,7%, de acordo com a pesquisa.
Geração Y - “Meus filhos fazem parte da geração Y, que nasceu utilizando a tecnologia, principalmente o computador. Eles são estimulados a usá-lo. Quando chegam em casa, a primeira coisa que fazem é abrir email, Orkut ou Messenger. Combinam de ir para a balada pelo computador; ao voltarem, muitas vezes de madrugada, acessam a internet para comentar o que aconteceu na balada. É uma necessidade de comunicação. Trata-se de um estilo de vida que está alterando comportamentos, prejudicando a saúde dos jovens, podendo acarretar, inclusive, sobrepeso, porque a utilização do computador está diminuindo o tempo de sono desta geração”, alertou a pesquisadora.
Segundo ela, há estudos internacionais que mostram que dormir pouco aumenta o risco dos transtornos psiquiátricos e emocionais. Dormir bem é fundamental à saúde. "O computador é um excelente meio de comunicação, mas temos que investigar o que ele está causando na humanidade”, disse.
Para o futuro, a pesquisadora faz um prognóstico, definido por uma palavra: isolamento. As pessoas vão se comunicar dentro de casa pelo computador, cada uma em seu quarto. Será uma nova forma de comportamento. “Há uma pesquisa em andamento que estou orientando que avalia quão real é a emoção do internauta pela tela do computador. A raiva ou o amor que ele sente atrás de um monitor de computador é igual ao que ele sente e demonstra pessoalmente? Estamos investigando”, conclui Gema.
Fonte: Jornal Unicamp/Edmilson Montalti, em Cotidiano Digital